quarta-feira, agosto 27, 2008

Cada época tem as suas grandes realizações humanas

foto Peciscas
foto Peciscas foto Peciscas Diariamente somos confrontados com cada vez mais incríveis realizações humanas.
A ciência, a tecnologia, o conhecimento, parecem fontes de inesgotáveis surpresas.
No entanto, todas as coisas, por mais espantosas que sejam, terão sempre de ser relativizadas e contextualizadas.
Reparem, por exemplo, nas imagens que vos apresento e que recolhi numa necrópole pré-histórica, perto de Celorico da Beira.
Num olhar mais apressado, nada se notará de invulgar nestas pedras.
Mas se pensarmos que não foi a natureza que as colocou nas posições em que agora se encontram, já ficaremos mais predispostos a considerar que estamos perante uma genial realização humana.
Com efeito, foi preciso desbastar uma das pedras, retirando-lhes pedaços mais ou menos grandes, conservando, no entanto, a forma que iria permitir equilibrá-la sobre outra.
E depois, como foi possível que aquele enorme bloco granítico fosse colocado sobre o outro?
Repare-se que esses nossos antepassados pouco mais tinham do que instrumentos rudimentares.
Nem gruas, nem guindastes, nem alavancas.
No entanto, foram capazes de criar uma obra que atravessou os milénios e chegou até nós.
É por estas e por outras que deveríamos ter algum cuidado quando desdenhamos de obras que julgamos inferiores, só porque as medimos por padrões desajustados e, em última análise, incultos.

segunda-feira, agosto 25, 2008

O direito à ilusão

Entre os anos cinquenta e oitenta, circulou , em Portugal, uma revista de "artes e espectáculos" (assim se auto-designava) que teve, a dada altura, bastante circulação.
Entre as várias iniciativas que promovia, contam-se as famosas eleições do "Rei" e da "Rainha" da Rádio, através da votação dos leitores.
Pois, a dada altura, a "Plateia" decidiu criar uma espécie de"ficheiro de artistas" (salvo erro denominado mesmo "Ficheiro Artístico Nacional") em que, semanalmente, publicava algumas páginas com os nomes, fotografias( grande parte delas tipo "passe", por vezes obtidas nas máquinas automáticas"), endereços e descrição das supostas capacidades de candidatos a uma carreira artística, nas mais diversas mosalidades. Do teatro ao cinema, da música à dança.
É claro que a publicação de cada ficha era paga pelo leitor.
Foram centenas, milhares, as fichas publicadas. De todo esse número arrisco-me a dizer que, na melhor das hipóteses, um ou dois participantes lograram "fazer carreira". E, mesmo neste caso, duvido que a publicação tivesse qualquer influência no facto.
A maior parte das descrições e fotografias apontavam para pessoas que dificilmente poderiam aspirar a singrar no mundo dos espectáculos.
Aquele "ficheiro artístico" alimentou, seguramente, muitas ilusões, sonhos e esperanças.
Mas, como costumo dizer, nesta sociedade, tudo se compra, tudo se vende.
Até o direito à ilusão, ao sonho, à esperança.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Cartas

Já não me lembro há quantos anos não escrevo uma carta.
Sim, uma carta, daquelas que a gente escrevia à mão, com caneta, para depois dobrar, colocar num envelope e enviar a alguém, pelo correio.
Estou a falar de cartas pessoais e não daquelas coisas tipo ofício, a enviar documentos, a fazer uma reclamação... Essas são "oficiais".
Durante uma parte significativa da minha vida, trocava correspondência, assiduamente, com amigos e amigas, que ia conhecendo na escola e fora dela.
Nesses tempos, em que as comunicações não eram tão céleres como actualmente, esperar pelo carteiro para ver se ele trazia a tão ansiada resposta, era um ritual onde se misturavam impaciência, ansiedade e alegrias.
Algumas dessas relações epistolares (e não só) perduraram longos anos.

Quando vivi dois anos muito longe daqui,em Timor, eram precisamente as cartas que, de algum modo, me mantinham "perto" daquilo que para trás tinha deixado.
As cartas ou os chamados "aerogramas". Estes, eram meios postais que o designado Movimento Nacional Feminino facultava aos militares e suas famílias, no tempo da guerra colonial e que não pagavam selo, pois eram transportados gratuitamente pela TAP.
Os aerogramas chegavam semanalmente. Em regra, num pequeno conjunto, mas escritos, na origem, em datas diferentes . O dia da distribuição desse correio, era um dia em que se roíam as unhas.
Quantos aerogramas vou ter?
Terei novidades lá de casa?
Às vezes, não vinha nada e sobrava a desilusão. Perguntava-se ao soldado que fazia a distribuição:
-Não tens mais nada?
Mas quando chegavam, os tais aerogramas eram lidos, logo ali, de fio a pavio, no maior recolhimento.
Nessas alturas, o quartel ficava mais silencioso.Uma ou outra lágrima, teimosa, rolava.
Aqueles papéis, amarelos ou azuis, tão leves e finos, eram, no fundo, o ténue fio que nos mitigava a saudade.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Assim se fazem carreiras

Há quase dois anos, apresentei aqui duas gravações (actualmente não disponíveis por questões de alojamento), cuja audição sugeria aos meus leitores.
Uma delas referia-se ao tema musical Zingarella, criado (nos anos oitenta) e interpretado por Enrico Macias.
Eis uma parte desta canção, num vídeo de má qualidade, captado num concerto do cantor francês.



A outra gravação reproduzia o tema "Ai destino", que Tony Carreira canta, gravou e tem registado na Sociedade Portuguesa de Autores, como tendo música de sua autoria.
Ora ouçam:



Não é preciso ter ouvido musical para concluir que se trata de um original e uma quase cópia.
Pois bem, de acordo com o que se referia a edição do
Diário de Notícias da passada sexta-feira, afinal, há, pelo menos, mais duas situações análogas, envolvendo o famoso cançonetista português.

Na altura em que publiquei o referido post, a coisa "ficou por aqui".
Mas agora, o assunto já está a saltar para os jornais, apesar das reservas com que está a ser abordado.
Entretanto, surgiu mesmo um blog (outros há) em que são documentadas estas três (pelo menos)situações. Quem quiser dar-se ao trabalho de visionar todos os vídeos lá contidos, poderá tirar conclusões.

Como eu escrevia em 24 de Novembro de 2006,

"assim se fazem carreiras".

terça-feira, agosto 19, 2008

Ó Lua que vais tão alta

Ó Lua que vais tão alta
redonda como um tamanco.
Ó Maria traz a escada
que eu não chego lá com o banco.
(quadra do cancioneiro popular português).


foto Peciscas E, por falar em Lua, dois dias depois de ela estar assim, cheinha e redondinha, resolveu brindar-nos com um eclipse. Acontecimento que qualquer fotógrafo amador que se preza, não deixa escapar...

foto Peciscas
foto Peciscas

segunda-feira, agosto 18, 2008

Falta-me o teu beijo

Nesse 18 de Agosto tiveste um dos dias mais felizes da tua vida.
O filho que tanto ansiavas chegou, finalmente.
A partir daí, nesse dia 18, fazias das fraquezas forças e tentavas o possível e o impossível, para comemorar a data.
Mas nem sempre existiam os meios necessários para que a comemoração fosse o que tu desejavas.
Numa dessas vezes, disseste-me.
-Meu filho, que te vou dar no dia dos teus anos? Já sabes que não há dinheiro para grandes coisas...
-Deixa lá. Faz-me um bife com batatas fritas e compra uma melancia.
E assim foi. Nesse dia 18, veio da feira carregada com um enorme melancia. Que lhe custou uns parcos tostões (nessa altura...).
Comer um bife e comer melancia, foi, dessa vez, uma bela prenda.
Comemos tanta melancia que acordámos, os dois, com uma enorme cólica.
Depois, vieram mais dias 18 de Agosto. Muitos mais.
Mas hoje já não estás cá.
Falta-me o teu beijo, Mami.