ESTA FIRMA FOI FUNDADA EM 31-12-2004.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Guarda-chuvas ecológicos

Nestes tempos de intempérie, dependemos de alguns equipamentos para evitarmos, o mais possível, molhadelas nada agradáveis.
O guarda-chuva ( que os amigos lisboetas e outro pessoal  lá do sul insiste em chamar "chapéu de chuva") é um desses equipamentos.
Mas trata-se de algo que só transportamos quando não pode mesmo deixar de ser. Em geral, se quando saímos de casa não chove, é certo que o dito cujo não segue viagem connosco.E esse facto tem muito  a ver com o facto de ser um objecto incómodo, que se esquece em qualquer sítio e também algo frágil. Basta ver a quantidade de destroços de cabos, varetas e panos que ficam pelas ruas em dias em que os aguaceiros são acompanhados de maior ventania.
Não era esse um problema para os timorenses.
Quando  vivi nesse longínquo território, dei conta de que as populações locais dispensavam guarda-chuvas. Pelo menos esses que se compram nas lojas e são produzidos industrialmente.
De facto, quando a chuvada era maior, os timorenses resolviam o problema muito facilmente. Iam-se a uma bananeira e cortavam uma das suas largas e impermeáveis folhas, mantendo o longo pé.
Assim se abrigavam. Com a vantagem de, passado o temporal, a folha poder ser abandonada, sendo facilmente decomposta pela natrureza.
Era, então, uma protecção prática e ecológica.

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sexta-feira, dezembro 04, 2009

As cestas do carvão


Nos meus tempos de criança, morando numa pequena cidade do interior, a vinda a uma grande metrópole como o Porto, era fonte de encantamento para os meus olhos provincianos.
Os carros eléctricos, oa anúncios de neon a cintilar na noite, deixavam-me sempre embasbacado.
E uma das coisas que particularmente admirava, era, logo à entrada da cidade,uma espécie de teleférico que cruzava a estrada, fazendo correr, em vaivém interminável, umas pequenas cestas pretas que corriam em cabos, suspensos em torres de betão e aço.
Explicaram-me que era por ali que o carvão extraído nas minas de S. Pedro da Cova, era conduzido até ao Monte Aventino, na zona das Antas, já bem na zona nobre da cidade do Porto.
Mais tarde, quando vim morar para cá, por coincidência, a minha casa ficava a cerca de cem metros dessa linha.
Lá estavam as ditas cestas, correndo. Para cima traziam o carvão, para baixo seguiam vazias. Quando passavam pelo poste, faziam um ruído metálico monótono e não muito agradável.
Mas tudo tem um fim. O carvão mineral caiu em desuso. As minas foram desactivadas. As cestas deixaram de ter serventia. Por isso, essa espécie de teleférico foi eliminado.
Mas, um destes dias, fui encontrar uns restos de uma construção que me parecia familiar.
Pois, era isso mesmo. Aquilo que a minha foto mostra é, nem mais nem menos, do que uma parte de uma desses postes que sutentavam os cabos por onde passavam as cestas do carvão.
Por ali passa, diariamente, muita gente. Os jovens, que até já grafitaram o "monumento" não farão a mínima ideia do que aquilo é.
E ainda farão menos ideia de como era violenta a vida dos mineiros, trabalhando quase como escravos, no fundo de buracos insalubres, para ganharem uma miséria. E para, a breve trecho, verem a saúde consumida pela terrível silicose.
Quem, aliás, quiser saber mais um pouco sobre o que aí se passava, pode encontrar aqui um impressionante e real testemunho de um antigo mineiro.

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segunda-feira, novembro 16, 2009

Grupo da Boa Memória

Faço parte de um grupo que já ultrapassa as duas dezenas de elementos.
Temos em comum três factos:
-somos todos aposentados;
-fomos todos professores;
-todos trabalhámos, na fase final da carreira, numa mesma escola.
Chamamos-lhe o "Grupo da Boa Memória".
De onde a onde, juntamo-nos, conversamos, convivemos, visitamos locais de interesse cultural, petiscamos.
Só há uma regra básica que todos respeitamos: não falar de política nem de Educação ou de escolas.
Por isso, estes encontros são sempre bons momentos, agradáveis jornadas onde nos sentimos bem. O último decorreu na passada terça-feira. Descobri dois monumentos no Porto, onde, apesar de viver aqui há quase 5o anos, nunca tinha entrado, mesmo passando à porta centenas de vezes.
O próximo evento já está agendado: será um almoço de Natal à beira-mar. Dentro de um abrigado restaurante, saliente-se...

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segunda-feira, outubro 12, 2009

A propósito dos tempos que correm ou Como era a informação nos velhos tempos...

No dia 24 de Agosto de 1957, o Diário de Notícias transcrevia um comunicado da Direcção-Geral de Saúde a tranquilizar a população portuguesa sobre a eventual ameaça de uma epidemia de gripe asiática. “Não há motivo para alarme no nosso país” assegurava o título da primeira página. Todas as providências para enfrentar o perigo tinham sido tomadas pelo Governo, informava o comunicado, e nenhum caso havia sido registado até àquele momento. Não era verdade. Já no início daquele mês alguns doentes passíveis de serem identificados como contaminados pelo vírus H2N2, o causador da doença, tinham ficado internados nos hospitais. Os primeiros casos só foram publicamente reconhecidos cinco dias depois, na primeira página do DN. “A gripe asiática chegou a Portugal, mas não há motivo para alarme".
...
Mesmo sendo público, e cientificamente comprovado pelos laboratórios internacionais, que a gripe era causada por um tipo de vírus, o H2N2, até então desconhecido dos humanos, o Diário de Notícias não resistiu à tentação de divulgar uma outra interpretação, mais em sintonia com a atmosfera política internacional: “A gripe asiática terá sido provocada por uma grande potência comunista para enfraquecer o mundo livre?”, questionava o DN em letras gordas em 17 de Agosto daquele ano.
...
Durante toda a primeira quinzena de Setembro de 1957 a gripe asiática ausentou-se misteriosamente dos jornais portugueses, para retornar a 19 daquele mês. Um artigo no Diário de Notícias relatava que estava debelado o surto de gripe que chegara a atingir 4 mil soldados no Campo Militar de Santa Margarida, no concelho de Constância.


Excertos do Volume 14 de “Os Anos de Salazar” ed. Planeta DeAgostini

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domingo, outubro 04, 2009

Morreu Mercedes Sosa


A lendária cantora argentina Mercedes Sosa faleceu hoje, informaram os familiares. Ela tinha 74 anos. "Nesta data, na cidade de Buenos Aires, Argentina, temos que informar que a senhora Mercedes Sosa, a maior artista da música popular latino-americana, nos deixou", diz um comunicado entregue pela família da cantora a jornalistas que estavam na frente da clínica Sanatório de la Trinidad, no bairro portenho de Palermo.

A notícia cai-me no e-mail, pela mão de um amigo e torna ainda mais cinzento este domingo em que a chuva regressa.
Mercedes Sosa foi uma voz da América Latina que era, desde há muito, uma referência para mim.
Não só cultural como também como exemplo de vida.
Esteve muitas vezes com as mães da Praça de Maio, chorando com elas o desaparecimento dos seus filhos, brutalmente assassinados pela cruel ditadura da sua Argentina.
Mercedes partiu fisicamente, mas a sua voz , o seu talento, a sua doçura melódica, ficam aí.
Uma das canções que ela celebrizou, repetia

Gracias a la vida

Também hoje digo

Agradeço à vida ter-nos dado uma mulher como Mercedes Sosa.

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quarta-feira, setembro 30, 2009

Obrigado Laura!


Há tempos, na última página do JN, vinha uma notícia que inevitavelmente me chamou a atenção. A Laura de Jesus, a "Laurinha da Unicepe" ia-se reformar, após 40 anos de trabalho.
Para quem não saiba, a Unicepe- Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, foi fundada em 1963, por um grupo de jovens estudantes que assim quiseram criar mais uma âncora de resistência cultural à ditadura.
Orgulho-me de ser um dos seus primeiros sócios, de ter sido seu dirigente e funcionário, até perto dos anos setenta.
E lembro-me muito bem da chegada da Laura à Unicepe. Primeiro, como empregada do pequeno bar que tínhamos, fazendo também limpezas. Entrando timidamente para um meio de gente com habilitações literárias de nível superior e, ainda por cima, não muito bem vista pelas "autoridades" de então.
Mas, apesar da sua escolaridade não ser elevada, a Laurinha, mulher inteligente , foi-se integrando no espírito da cooperativa, foi aprendendo mais e mais sobre livros e cultura, até se tornar uma peça-chave do funcionamento da Unicepe.
Agora, a Laurinha, aos 64, vai embora, com muitas recordações para evocar.
Sobre muitos vultos da cultura nacional que passavam por aquelas salas de um vetusto edifício da Praça de Carlos Alberto, onde ainda hoje se encontram as instalações.
E sobre um tempo de medos e coragens, que por ali vivíamos, sempre com a perspectiva de nos entrarem pelas portas adentro, aqueles vultos cinzentos e sombrios, para quem a cultura, como a Goebells, fazia "puxar da pistola".
Foi com pessoas como a Laura de Jesus que a Unicepe conseguiu resistir a muitas crises e a muitos obstáculos.
Em nome dos pioneiros da Unicepe, em memória desses tempos que agora recordamos, por toda a tua dedicação, por teres sabido sempre "vestir a camisola" da nossa Cooperativa,
OBRIGADO LAURINHA!

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quarta-feira, setembro 02, 2009

Setembro diferente

Desde há três anos que o meu Setembro é diferente.
Antes disso,e num passado mais ou menos recente, quando acabavam as férias de Agosto e era tempo de começar mais um ano de trabalho lectivo, chegava a altura de levar a cabo as tarefas preparatórias de uma nova etapa profissional.
Limpar e arrumar a pasta, que tinha ficado num canto do escritório, carregada de papelada e de saturação.
Preparar as capas das cadernetas das novas turmas.
Seleccionar livros e outros materiais a utilizar.
Chegava, também, a costumada expectativa de conhecer novos colegas de trabalho e, sobretudo, novos alunos.
Como seriam? Como iria relacionar-me com eles? Que dificuldades me iriam colocar?
Nessa altura, sentia sempre que um outro ciclo se iniciava.
Depois de me ter aposentado e, mais do que isso, de ter saído tão descontente e magoado daquela que foi a minha profissão sempre desejada, o meu Setembro já não tem esses ingredientes que o condimentavam.
Mas, querem saber?
Não sinto falta desses Setembros.
Hoje, quando passei à porta de algumas das escolas da zona e vi os parques de estacionamento cheios de carros de colegas que já iniciaram o trabalho, senti-me ...aliviado.
Sem saudades dquela adrenalina de outros Setembros.
Não deveria ser assim.
Nunca esperei que fosse assim.
Mas é o que (ainda) sinto.
Para já.
Será que um dia as saudades virão mesmo?

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terça-feira, agosto 18, 2009

Um pequeno erro

Como acontecia na maior parte dos casos naquele tempo, nasci em casa.
Mais propriamente na casa do avô Aleixo, numa aldeia do interior tansmontano.
Passado algum tempo, talvez um mês depois, o bom do Aleixo foi tratar de me registar (o meu pai, nessa altura, estava a trabalhar numa terra distante).
Assim, foi à sede do concelho e dirigiu-se à repartição respectiva da câmara municipal.
Lá foi fornecendo os dados que o funcionário lhe ia pedindo. Nome do rebento, nomes dos pais,...
O problema apareceu quando lhe foi perguntado:
- E em que dia nasceu o rapaz?
Aí, o meu avô, um galego que fez a sua vida em Portugal, à custa de muito trabalho e sacrifícios e era um homem de pouca instrução, ficou bloqueado.
- Ora, sei lá ao certo... Foi no dia da feira lá da terra...
Mas havia que resolver a questão. O funcionário, consultando o calendário, foi aventando datas que coincidissem com a dia da semana em que tinha havido feira lá na minha terra natal.
E, depois de várias "negociações" os dois chegaram a um consenso.
E fui registado como tendo nascido em 11 de Agosto.
Quando o avô Aleixo chegou a casa e mostrou a cédula que lhe tinham dado, a minha mãe ficou estupefacta.
-Ó paizinho, então foi registar a rapaz com uma semana de antecipação?
Assim, se a versão dos meus pais está correcta (e tudo leva a crer que sim), oficialmente sou uma semana mais velho do que realmente sou.
E daí não virá nenhum mal ao mundo.

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segunda-feira, agosto 10, 2009

Em memória de Raul Solnado

Difícil seria não falar do desaparecimento físico de Raul Solnado.
Um artista que, ao seu modo, marcou uma época.
Era, acima de tudo, um português, que para além de fazer rir outros portugueses, também os fez pensar.
O Zip-Zip, de que foi um dos impulsionadores decisivos foi o primeiro programa de televisão que furou a barreira do cinzentismo cultural de um país em que era imposto o pensamento único e tudo era controlado.
Às segundas feiras, entre Maio e Dezembro de 1969, era certa a minha presença frente ao televisor, aguardando, com expectativa, o que se iria passar naqueles minutos que eram uma espécie de oásis na programação da RTP.
Quantos artistas, cantores, pintores, cuja presença não era habitual nos grandes meios de comunicação, por ali passaram.
E, depois, esses monólogos que se ouviam a cada hora na rádio, com destaque para essa inesquecível "Ida à Guerra de 1908". Onde se fazia, através da sátira inteligente, a denúncia da inutilidade dos conflitos armados. Combater a guerra realçando o seu lado ridículo foi uma aposta inteligente do actor. E, também, um acto de coragem, pois, a guerra colonial estava no auge.
Assistia a algumas peças protagonizadas pelo Solnado. Refiro, em especial, "Bravo Soldado Schweik", baseado num livro de Jaroslav Hasek, que eu tinha lido aos 19 anos e tinha relido quando andei na tropa, pois era um libelo certeiro contra o militarismo acéfalo.
Num desses espectáculos, no teatro Sá da Bandeira no Porto, os espectadores foram avisados de que, no final da peça deveriam permanecer na sala para assistirem a uma rábula do actor. Foi então que ouvi, pela primeira vez, mais um dos seus monólogos ,"A Bombeiral da Moda", que foi nessa altura gravada ao vivo, para poder ter, como fundo, as gargalhadas do público. Por isso, de certa forma, colaborei no disco que depois foi editado.
E também tive o privilégio de ter um texto meu lido (enviado para um concurso promovido pelos realizadores) pelo grande actor, no programa radiofónico "Tempo Zip" que, foi uma espécie de prolongamento do "talk show" televisivo.
Recordo ainda, uma apoteótica recepção que lhe foi prestada aqui no Porto, na estação de S. Bento, numa altura em que veio para uma sessão de autógrafos ali na Vadeca da rua de Santo António (hoje 31 de Janeiro). Nunca a velha estação ferroviária esteve pejada de tanta gente. Situação talvez apenas comparável ao acolhimento do General Sem Medo, Humberto Delgado, uns anos antes.
Mas, os grandes artistas, os que marcam o seu tempo, podem desaparecer fisicamete, que a sua memória os fará sempre reviver.
É o caso de Raul Solnado.

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segunda-feira, agosto 03, 2009

Adeus B.

Conheci o B. no último ano em que estive na direcção da escola onde trabalhei.
Era um "aluno problemático", oriundo de uma "família desestruturada".
Frequentemente, o B. vagueava pela escola (onde vinha sobretudo para almoçar e merendar), não ia às aulas e praticava pequenos delitos. Era agressivo (principalmente quando o tratavam pelha alcunha que já vinha da família, pois pouca gente conhecia o seu nome próprio), subtraía objectos e mentia sobre tudo e nada.
Diga-se de passagem, que os professores da turma onde estava colocado, preferiam vê-lo fora da sala. Por isso, quando eu o apanhava a "vadiar" e o obrigava a ir para a aula,os meus colegas "torciam o nariz".
Quando o B. era conduzido ao meu gabinete, porque tinha atirado mais uma pedra a um colega ou porque tinha roubado uma esferográfica ou um estojo ou um relógio, era certo e sabido que começava por gritar a sua inocência, ao mesmo tempo que tremia quase convulsivamente.
Reparava, então, que na velha e suja mochila, não havia mais do que uma capa de argolas sebenta, com duas ou três folhas com algumas garatujas.
O B. , ao fim de seis anos de escolaridade no 1º ciclo, quase não sabia escrever.
Tive de o castigar, mais do que uma vez, aplicando os regulamentos disciplinares em vigor. Algumas vezes o levei a casa, situada num bairro social.
Mas eu sabia que o B. estar uns dias suspenso da frequência da escola, pouco adiantava. Ele regressava e voltava a prevaricar.
Aliás, este comportamento desviante, era estimulado pela própria família. O pai, alcoólico e a mãe, vivendo apenas do rendimento mínimo, davam cobertura aos "desvios " do filho, de que até tiravam partido.
Recusei-me a acreditar que o B. não tinha solução.
Assim, quando deixei o cargo de Presidente do Conselho Executivo, fiz questão de colocar o B. numa classe. de que seria professor e director de turma.E enfrentar o desafio que o B. constituia.
E aí, com a colaboração da excelente equipa de professores que me acompanhava, com avanços e recuos, conseguimos, pouco a pouco, que o B. se fosse modificando.
Por exemplo, arranjei-lhe um cacifo, de que só eu e uma funcionária tínhamos a chave, para guardar o material escolar que lhe era distribuído. Assim, o B. teve cadernos e livros durante todo o ano pois não os levava consigo no fim das actividades escolares.
Nas aulas, que passou a frequentar assiduamente, todos ajudavamos o B. a superar as imensas dificuldades de aprendizagem que carregava.´Foi transitando de ano. Certamente que, não tenho problemas em o reconhecer, concedendo-lhe o "facilitismo" que era condição básica para que o B. sentisse algum sucesso e subisse um pouco a sua auto-estima.Aliás, ainda um dia hei-de aqui falar sobre essa candente questão do facilitismo...
Estive com ele dois anos.
O B. transfigurou-se. Deixou de cometer esses delitos de outrora. A comunidade escolar deixou de ter motivos para trazer o B. sempre "debaixo de olho". "Quem o viu e quem o vê" dizia muita gente.
Ultimamente estava a tentar concluir um Curso Profissional.
Mas, decididamente, o B. nasceu do lado errado da vida.
Na semana passado, foi até à praia. A notícia que veio no jornal, falava de um jovem, aparentando 18 anos, que para ali fora sozinho, sem qualquer documento. Morreu afogado e foi conduzido para o Instituto de Medicina Legal. Só mais tarde seria identificado.
Ao fim do dia, uma colega ligou-me a dar a triste novidade.
O B. chegara ao fim da sua rápida e atribulada existência.
Fui levar-lhe um ramo de flores.
O B. estava com ar sereno. De gravata.
Terá sido a única vez que usou gravata.
Adeus B.
Tentámos ajudar-te. Mas há coisas que parecem não se poder contrariar.

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quarta-feira, julho 22, 2009

Nessa madrugada, fui dormir...

Nos últimos dias muito se tem falado da chegada do Homem à lua. Passaram 40 anos e há que comemorar.
Mas, não adianta pôr-me para aqui a armar-me, dizendo que, então, estive acordado até às tantas, porque não queria perder o acontecimento do século.
Pura e simplesmente, não assisti à transmissão. Fui dormir e não me importei de ignorar um facto que se iria tornar obviamente histórico.
Agora, quando comento esse facto com alguém, designadamente com as gerações mais novas, não falta quem me censure ou, no mínimo, quem ache estranho ter perdido uma tal oportunidade.
Não sei se hoje me alhearia de igual modo de uma tal situação. Até porque, com a evolução impressionante dos meios de comunicação, a transmissão seria certamente muito mais aliciante do que aquela foi.
Mas, naquela altura, não achei demasiado relevante que houvesse um pé humano a pisar a superfício do nosso satélite.
Porque achava, na fogosidade dos meus vinte e poucos anos, que, para lá das conquistas tecnológicas colaterais à façanha, nada de particularmente relevante ganharia a Humanidade. Porque sabia que não seria possível viver-se em permanência na Lua. E que, muito provavelmente, passado o impacto da chegada pioneira, poucas vezes mais de iria até ali.
Ou seja, o acontecimento teria, sobteudo, um significado político.
Terá sido por tudo isso que, nessa madrugada de 20 de Junho de 1969, ao contrario de tanta outra gente,não estive acordado.
E perdi a oportunidade de ter mais uma história para contar aos netos.

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segunda-feira, julho 20, 2009

O Adriano vai cá fazer falta.

É bem provável que nenhum de vós saiba quem era o Adriano Teixeira de Sousa.
Professor empenhado na sua profissão. Sindicalista combativo e determinado.
Mas, sobretudo, um HOMEM BOM!
É claro que se poderá supor que esta designação é a que habitualmente se aplica a alguém que acaba de falecer.Todos são bons quando partem.
Mas o Adriano era mesmo assim.
Capaz de, no meio das maiores e mais acaloradas discussões, encontrar uma palavra de apaziguamento, de compreensão de tolerância. Sem abdicar, no entanto, das suas convições, quando os argumentos contrários não o convenciam.
Dirigente do Sindicato dos Professores do Norte e da Fenprof, o Adriano nunca abdicou da sua condição de professor "militante". Ou seja, fez sempre questão de leccionar, para nunca perder o contacto com a realidade das escolas. Não queria ser sindicalista a tempo inteiro.
Minado por uma doença implacável, enquanto pôde, marcou presença diária na sede do SPN e não deixou de participar nas manifestações de professores. Mesmo quando a sua capacidade de comunicação com os outros já estava quase totalmente afectada, o Adriano manteve-se na luta, já que continuava mentalmente lúcido e empenhado na defesa da profissão que foi a sua.
É difícil ver partir um ser humano com esta dimensão.
É muito difícil.
O Adriano vai cá fazer muita falta.
Um último abraço, amigo, neste triste dia em que vais a sepultar.

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segunda-feira, junho 29, 2009

Mas vou falar de uma morte...

foto Peciscas
Serigrafia de Nuno Barreto

Como um pouco por todo o mundo se fala da morte de Michael Jackson, eu não iria acrescentar nada.
Mas vou falar de uma morte.
A do Nuno. Nuno Barreto.
Qual de vós sabe quem era?
Conhecem melhor o irmão António, porque escreve nos jornais, aparece na televisão e foi ministro.
Para quem não sabe, o Nuno era pintor. O Nuno Barreto fez ilustrações para os meus arroubos de poesia do final da adolescência.
Lembro-me do Nuno, já aqui no Porto, quando cursava Belas-Artes, a prescindir do almoço para poder comprar tintas (“vou comer umas tangerinas”).
Foi professor nessa mesma Escola de Belas-Artes onde estudou. Ao que sei, bom professor.
Esteve largos anos em Macau, onde deixou marcas.
Morreu há dias, quando ainda tinha muito para fazer por cá.
Tenho ali uma serigrafia do Nuno.
E tenho a memória de um artista.

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quinta-feira, junho 25, 2009

Um S. João diferente

Estávamos longe das ruas, praças e avenidas que seriam, mais uma vez, invadidas por um mar de gente ruidosa e feliz.

À distância de milhares de quilómetros ouvíamos, nitidamente, os gritos das rusgas, o trilar dos martelinhos, as cantigas repetidas pelas incansáveis gargantas. Sentíamos, mesmo, o cheiro típico daquela noite, misto de cravo e cidreira temperado pelo indispensável alho-porro.

Nós, "os do Porto", não podíamos, daquela vez, ir cedo para a cama. Estava assente, há muito tempo, que também nós teríamos a "grande festa".

Serpenteando por entre os troncos dos coqueiros, os fios com as coloridas bandeiras de papel. No meio do terreiro a fogueira, viva e palpitante, soltava, de quando em quando, faúlhas que eram os foguetes que não tínhamos podido comprar.

À falta de sardinhas, cuja recordação nos fazia crescer àgua na boca, o caldo verde fervia na panela e o chouriço assado enchia a noite e a nossa imaginação.

No gravador, com o som bem aberto, as músicas do António Mafra ecoavam na calma tropical, acordando os pássaros que, espavoridos, fugiam. De longe, ficavam a contemplar toda aquela estranha movimentação.

De quando em quando, na estrada, um timorense parava e olhava-nos com um sorriso espantado, não compreendendo a razão de ser daquela festa inesperada.

Não imaginava como era importante para nós, do outro lado da Terra, vivermos também a nossa noite de S. João.

António Peciscas, 1985

(evocando uma noite de S.João em Timor, 1973)

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quinta-feira, junho 04, 2009

As flores não devem ser cortadas

foto Peciscas
Conheci o Dário Bastos, pai de uma colega e amiga, já no final da sua existência. Frágil, mas de olhar vivo e uma simpatia irradiante.
De si mesmo disse ter sido "um soldado raso do exército da liberdade".
Oposicionista determinado ao regime anterior, esteve preso por diversas vezes. Nomeadamènte, foi detido, em frente da família, numa noite da consoada natalícia.
O seu nome. no entanto, não entrou para a história da resistência, ao contrário de outros vultos menores que souberam fazer-se notados.
Publicou diversos livros, designadamente de poesia.
Era um homem sensível, profundamente amado pela sua companheira de sempre e pelas suas filhas e netas.
Só muito recentemente, na freguesia onde viveu, começou a ser evocado, sendo dado o seu nome a uma pequena rua .
O Dário disse um dia:

"As flores não devem ser cortadas. Devem nascer, viver e morrer nos jardins".

Se calhar o Dário tinha razão. Como em muitas outras coisas.

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quinta-feira, maio 28, 2009

O meu Quim

Estamos em 1971.
Entre os meus meninos da primeira classe estava o Joaquim.
Era dos mais novos de quase um dúzia de filhos. O pai era mineiro, no Pejão. A mãe era mãe. E Deus sabe como era Mãe.
Viviam perto do cemitério de Rio Mau, numa coisa chamada casa, feita de lajes sobrepostas e coberta de telhas portuguesas, tão gastas como os carreiros que nos deixavam chegar ao Alto de S. João.
O homem chegava com o nascer do Sol e encontrava a mulher no aido do porco ou no galinheiro, dando de comer à bicharada. Era aí que, amiudadas vezes, se "servia" dela. Aí tinham o seu espaço de intimidade.
Os "bichos" não tinham linguagem de gente e o seu testemunho não tinha força de lei.
Na "casa" os cachopos começavam a acordar. Antes da escola, havia erva para dar aos coelhos, estrume para tirar dos aidos e a bacia de zinco cheia de roupa suja para levar até à margem do Rio Mau, porque a mãe levava um carrego de filhos pequenos.
Um ao colo, outro pela mão, outro ainda numa giga à cabeça, deitado sobre a roupa menos suja e, se calhar, um outro na barriga, porque Deus a fizera boa parideira e viver em pecado...nunca!
Todos os filhos desta casa eram lindos e não se lhe encontravam piolhos nem "colares" de ferradelas de pulgas no pescoço. Brilhavam de asseio. Mas o Quim tinha um ar angelical que fazia dele "o meu" Quim.
Aprendia com alguma lentidão e desesperou-me algumas vezes.
Um dia achei-o demasiado calmo e ainda mais bonito, mas a sua palidez arrepiou-me. Levei-o ao posto médico, que ficava mesmo ao lado da escola. O doutor Amorim olhou-me assustado e mandou chamar a mãe do menino.
O Quim foi levado para o Hospital de S. João no mesmo dia.
Estava muito doente. Terrivelmente doente.
Isolaram-no durante algumas semanas. Ia visitá-lo ao sábado à tarde. Perguntava-me pelos pais, pelos irmãos, pelos amigos. Queria muito a sua mãe, mas não havia dinheiro para pagar a "carreira" para o Porto, depois o táxi até o hospital e ainda o bilhete de ingresso para a visita.
A pobreza era tão pobre que, hoje, tudo isto é impensável, quase ridículo.
A minha angústia crescia com o sofrimento do Quim, mas havia barreiras que não podia transpor.
Chegou o tempo de férias.
Casei num domingo de Agosto.
Faltei dois sábados à visita.
Quando voltei ao hospital, procurei o meu rapaz e não o encontrei. Regressara a casa naquela semana, mas teve ainda tempo, antes da partida, para falar à enfermeira sobre a "sua professora" e da saudade que sentia dela.
Enterraram-no junto do muro que separava o cemitério da leira dos seus pais, onde tantas vezes brincou e foi menino e, onde, de foicinha na mão, cortou erva para os animais e foi homem.
Não consegui deixar, na pequena sepultura, as flores brancas que levava. O meu Quim não estava ali. Não podia ser a sua última morada. Fui levá-las à sua mãe.
Pousei-as na soleira da cozinha.Sei que as encontrou e adivinhou logo que eram da professora do seu menino.
Tenho a certeza de que, desde então, o presépio da capela de S. João de Rio Mau (Sebolido) tem um Menino Jesus lindo, lindíssimo, e eu sei que ganhei um Anjo Protector.
Sinto-o muitas vezes.

Maria de Lourdes dos Anjos
Professora Aposentada do 1º Ciclo e escritora
(in "Nobre Povo" ed. Gailivro 2008)

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quarta-feira, abril 29, 2009

Para que nunca se esqueça...

foto Peciscas
foto Peciscas Ao observarmos estas imagens, à primeira vista poderá parecer que estamos em presença de inofensivas latas que acondicionam um qualquer adubo.
No entanto, tal não corresponde à realidade.
Estas são fotos que fiz, há anos, no antigo campo de concentração nazi de Auschwitz.
Estas embalagens vinham cheias de um granulado, o Zyklon B, inicialmente um pesticida usado para matar piolhos.
No entanto, os nazis usaram-no para assassinar milhões de judeus, nas suas sinistras câmaras de execução em massa.
Com efeito, quando em contato com o ar o Zyklon B desenvolve gases que matam em questão de minutos.
Por isso, quando o visitante percorre, em silêncio aquelas salas onde se expõem os despojos do martírio que ali decorreu, não deixa de sentir um arrepio a percorrer-lhe o corpo. E não pode deixar de pensar a que limites inimagináveis pode chegar a crueldade humana.
E saber que andam por aí vozes a garantir que o Holocausto nunca aconteceu!...

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sexta-feira, abril 24, 2009

O meu testemunho sobre o 25 de Abril

Porque acho que ainda vale a pena falar de Abril, aqui vos deixo com um testemunho, na primeira pessoa, e de viva voz, que evoca algo que aconteceu há muito tempo mas que, para mim e para muitos, tem ( e há-de ter) ainda um grande significado.

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quarta-feira, abril 22, 2009

Hoje, um post íntimo


Se não tivesses partido , farias hoje 87 anos.
Mas não estás cá e o vazio que deixaste não está nem nunca estará preenchido.
Os teus inesquecíveis olhos azuis, já não se abrem naquele sorriso luminoso com que sempre me brindavas, nesses dias 22 em que te abraçava longamente, e saudava a passagem de mais um aniversário.
Sabes, quando nos deixaste, trouxe uma haste da última roseira que plantaste no teu jardim? Aquela roseira que cobiçaste na florista e que te ofereci num pequeno vaso.
Naquele pedacito de terra onde cultivavas, com tanto carinho, as tuas "meninas". Com quem falavas diariamente, porque dizias que as plantas só crescerão saudáveis se conversarmos com elas.
Plantei essa haste aqui em frente, na minha casa.
Rosas vermelhas.
Assim quando a roseira floresce, imagino que as rosas que se abrem , são , ainda, os beijos que me trazes e que tanta falta hoje me fazem.
Vê que já tem um botão. Um destes dias vou recolher mais um beijo teu.
Se não tivesses partido, farias hoje, 87 anos.
A todos os amigos e amigas que me acompanharam neste post, hoje mais íntimo e melancólico, a minha gratidão pelas palavras solidárias.
É por isto (e muito mais) que é bom ter-vos comigo.

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terça-feira, abril 14, 2009

Um novo akordu urtugrafiku

Na escola onde trabalhei, por alturas de Julho, organiza-se um passeio de confraternização dos professores.
Pertenci à organização do evento, durante muitos anos.
Para cada passeata, era necessário produzir um texto, para comunicar aos colegas a importância a pagar, coisa que só se apurava perto do final da viagem.
Eu (que tinha a meu cargo essa tarefa) procurava que os textos fossem sempre diferentes, de ano para ano, e de certo modo adaptados à época em que se vivia.
Confesso que, por vezes, era preciso dar muitas voltas à cabeça para encontrar ideias novas.
No 13º passeio, estava-se em tempo de preparação da entrada da nova moeda europeia e, um pouco por todo o lado, tentava-se ensinar a fazer a conversão de escudos para euros.
Então, no folheto desse ano, resolvi aproveitar essa deixa.
E, não prevendo nessa altura a polémica sobre o novo acordo ortográfico, resolvi, eu mesmo, criar o meu próprio acordo, ou melhor, akordu...
Então, tentem ler a minha lição (ver scanner na imagem seguinte) e vejam se entendem esta linguagem.
Não se espantem muito porque bastantes dos nosso alunos actuais não andam muito longe deste modo de expressão...




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