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quinta-feira, novembro 02, 2006

Variações sobre o mesmo tema 3

Falava eu, no texto precedente do elogio da humildade e da aceitação da pobreza, que nos "tempos da velha senhora" eram veiculados através do fado.
A Amália, que, sem dúvida foi dotada pela natureza de um voz única, com uma profundidade interpretativa e dramática invulgar, também não escapou a essa fatalidade. Isto, apesar de, sobretudo a partir dos anos sessenta, ter começado a incluir no seu reportório, poetas e músicos com maior exigência de qualidade.
Mas, um dos seus fados que passou muito pelas nossas rádios, nesses longínquos tempos, dizia coisas assim:
"Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa co'a gente.
Fica bem essa franqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente."
E tinha outra que descrevia, de igual modo idílico e cor-de-rosa, a vida de um casal pobrezinho mas feliz. Chamava-se "A cantiga da boa gente".
O refrão dizia
"Quando chega a tarde
tarde tardezinha
já o jantar fumega
na lareira da cozinha
os filhos sorriem
o Manel também
não há melhor vida
que aquela que gente tem"
Mas, clandestinamente, havia quem se encarregasse de colocar letras diferentes nas músicas que se popularizavam. Era, também, uma forma de luta contra o regime.
Eis uma versão "diferente" dessa cantiga:
"Não nos falta nada
nesta nossa terrra
temos futebol
e até temos guerra.
Temos Totobola,
fado pra chorar
não temos razão
quando queremos protestar.
Nos bairros de lata
não se vive mal. pois há lá conforto
...espiritual.
Temos Salazar
pra nos garantir
que enquanto viver
andaremos a pedir.
refrão
E pela manhã
pela manhãzinha
bate a pide à porta
entra mesmo pla cozinha.
Revolve o que há,
leva preso alguém...
... não há melhor vida
q´aquela q´a gente tem"


Maria Lisboa (David Mourão-Ferreira- Alain Oulman) Mariza