segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Manifestações, espontâneas, porquê?

Conforme foi amplamente noticiado, no sábado, milhares de professores, reuniram-se, em três localidades, de forma espontânea, para protestarem contra o modo como o Ministério da Educação está a afrontá-los.
Desta vez, nem o argumento que insinua estarem por trás de tudo isto os sindicatos ou as oposições, é minimamente credível.
Com efeito, esta foi uma manifestação convocada por SMS, e-mail ou blogues.
Neste vídeo, pude comprovar este distanciamento de intenções políticas, porque reconheci alguns colegas (designadamente um que até fez estágio sob a minha orientação) que sempre assumiram posições muito discretas, nomeadamente não aderindo às greves.
Por outro lado, está também lançado um movimento (Associação Nacional de Professores em Defesa da Educação), para além de partidos ou sindicatos, com o objectivo de lutar contra uma série de medidas gravosas para os professores e, por isso mesmo, contra a escola pública.
Quem não está por dentro daquilo que se está a passar nas escolas, poderá interrogar-se sobre as razões destas movimentações. Eventualmente poderá até, considerar que se trata do estrebuchar de interesses corporativos de quem quer eximir-se ao trabalho.
Não é, de facto, assim.
Para que se saiba, há neste momento, uma grande parte dos professores, perdida em horas e horas de incontáveis reuniões, muito para além do horário legal de trabalho.
Para preparar melhor as aulas? Para descobrir e planificar, em conjunto, estratégias para a superação do insucesso escolar do aluno? Para ampliar a sua própria formaçãp profissional?
Não! Essas horas estão a ser gastas em trabalho burocrático e administrativo.
Invenção de fichas e mais fichas para avaliação dos docentes (num caso que conheço, uma escola já chegou às 25 páginas...). Fichas essas que irão dar origem a mais papelada, pois vão obrigar, por exemplo, os docentes, em cada aula, a fazer, por escrito, análise de resultados dos instrumento de avaliação utilizados ; e por aí fora. Horas também consumidas a preencher planos de recuperação para os alunos em dificuldades, em muitos casos para disfarçar problemas estruturais que fazem com que eles estejam em permanente insucesso.
Mas, como há que inventar indicadores de sucesso, cria-se esta burocracia, para se fingir que se está a actuar.
Ou seja, em grande medida, nos dias que passam, os professores têm de ter tempo e disponibilidade psíquica para tudo, menos para aquilo que deveria ser essencial: ensinar, educar, formar os alunos.
E isto, para não falar de um clima de animosidade entre docentes, que se começa a instalar e que está a dividir a classe. Em titulares e não titulares.Entre avaliadores e avaliados.
Entretanto, há já muitos jovens, que, perante a insistência do professor para que trabalhem e estejam nas aulas com um mínimo de atenção, respondem algo como:
-Quero lá saber... Os professores vão ter que dar positiva aos alunos para que não tenham negativa e sejam castigados!
É que a miudagem já "apanhou" o clima de intimidação subjacente a todo o processo do novo Estatuto da Carreira Docente, em particular com o regime de avaliação.
O que, no meio disto tudo, é trágico, é que, no final, quem vai "pagar as favas" é a qualidade do próprio ensino.
Em 2009, vai haver um novo estudo PISA. Este será um indicador, tantas vezes citado pela ministra e sua equipa, que poderá contribuir para se desfazerem dúvidas sobre a eficácia de toda esta panóplia de reformas ( algumas delas que até partem de uma base lógica e justificada), precipitadamente despejadas sobre a escola portuguesa. Só que os resultados do estudo apenas serão conhecidos em 2010, altura em que, muito provavelmente, a actual ministra já estará fora de cena, resguardada num qualquer cargo que não tenha visibilidade pública.
É por isso que um largo movimento de opinião, que congregue, muito para além da classe docente, encarregados de educação e famílias, pode, ainda, fazer inverter este amontoado de erros que, a continuar, pode comprometer, gravemente, o futuro educacional dos nossos jovens.

1 comentário:

Andreia disse...

Realmente, isto está a chegar a um estado... Até vou mandar o teu textos por email para alguns contactos!