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quarta-feira, outubro 04, 2006

Uma mula chamada Rita


Talvez por influências familiares, há bastantes anos que frequento uma modesta, mas muito higiénica barbearia que, apesar de situada paredes-meias com uma grande cidade, conserva ainda as características daqueles velhos estabelecimentos tradicionais do ramo, onde, para além de se cortarem cabelos e barbas, se lêem jornais, se discutem as incidências do futebol, em suma, se põem as conversas em dia.
Ontem, estive lá e, enquanto era atendido, ouvi mais uma deliciosa história, narrada por um dos clientes, que, como muitos outros, por lá passou, sem que precisar dos serviços do discreto Manel, ou seja, estava lá apenas para "fazer um pouco de sala".
Esse cliente, tinha feito tropa em Vendas Novas, há mais de cinquenta anos.
No aquartelamento, era necessário, todos os dias, ir à estação da CP, buscar o pão, que era fabricado em outra unidade.
Essa tarefa era executada com recurso a uma carroça puxada por uma mula. Rita de seu nome.
Assim, para além do cocheiro, que era um soldado veterano, era destacado, por escala, um outro soldado, que teria que carregar e descarregar o cesto que trazia o pão.
Quando lhe calhou a vez, o narrador da história, após colocar o cesto na carroça, disse ao condutor:
-Vamos embora!
E, o cochero:
-Arre mula! Arre Rita!
Só que a alimária, em vez de se pôr em movimento, desferiu um violento par de coices na carroça e quedou-se no mesmo sítio.
- Que se passa?- disse o atónito soldado.
- Ò pá, já me estava a esquecer. Vai aí ao cesto e tira de lá um casqueiro.
- Mas, ouve lá! Eles lá no quartel vão contar os pães e, se dão por falta de um, vamos levar no pêlo!
-Deixa lá isso, que eles já sabem.
Então, foi ao cesto, tirou o tal casqueiro, partiu-o ao meio de deu-o à Rita que, avidamente, o abocanhou e fez desaparecer nas entranhas.
E, só então, quando o cocheiro lhe voltou a dizer "Arre Rita!", é que a mula, calmamente, encetou a viagem de regresso ao quartel.