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quinta-feira, outubro 12, 2006


Certo dia apareceu lá por Dili, um jovem militar que se imaginou empresário de espectáculos.
Ele não seria lá muito criativo, mas era, inegavelmente, empreendedor.
Assim, organizou "A grande noite do fado", uma coisa chamada "Trap-Trap" no formato do inesquecível "Zip-Zip" e o "Primeiro Festival da Canção de Timor". Primeiro e creio que último.
Quando se anunciou o evento, desafiei o meu amigo Manel, um lisboeta bastante dado a fadistices, para concorrermos ao festival.
E lá fizemos duas cantigas. Ele compôs a música, eu escrevi as letras.
Mas punha-se a questão dos intérpretes, problema que deixei ao encargo do meu parceiro.
Para uma delas, que se chamava "Catuas Maubere", arranjou-se um conjunto local, que fez uma interpretação mais ou menos modernista do tema. Assisti a um ensaio e a coisa até não estava muito mal.
Mas, para a outra composição,bastante mais melodiosa, "Menina Timor", o Manel convidou um furriel, que ele dizia que "foi o melhor que se pode arranjar", mas que eu nem sabia quem era.
Na noite do festival, quando chegámos à casa de espectáculos (a única que havia em Dili), o Manel, finalmente, apresentou-me o artista.
Mas, azares uns atrás dos outros: o homem estava rouco e ainda por cima,tinha vindo já vestido de casa com as calças brancas com que iria actuar e,ao tomar um café, derramou parte sobre a indumentária, ficando com uma ridícula nódoa castanha, na alvura das pantalonas de cerimónia.
Eu e o Manel, lá fomos para os nossos lugares, enfiando-nos pela cadeira abaixo.
Quando chegou a vez do nosso cantor, lá do palco saíam uns guinchos, acompanhados de desesperados gestos a apontar a garganta, enquanto na sala, ecoavam risos, com dedos apontados à nódoa de café.E não era só a rouquidão (relativa) do homem a justificação de tal desconcerto. É que ele, afinal, cantava mesmo mal tendo-me o Manel confessado que, verdadeiramente, nunca o ouvira cantar.
Com essa cantiga, ficámos em penúltimo lugar, pois ainda houve outra prestação pior.
Vá lá que, com a outra, ficámos a meio da tabela.
Para rematar, um outro pormenor delicioso: do júri que apreciou e votou as canções, fazia parte um sargento que tocava trompete e acompanhou um dos cantores que actuou no festival.
"Por acaso" até foi essa a canção que ganhou...

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