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segunda-feira, novembro 13, 2006

Modernices

Há muitos anos atrás, quando estava a começar a minha carreira docente, estavam muito em voga as chamadas "Matemáticas modernas".
Durante bastante tempo, perdurou essa moda, importada de outros países, principalmente de França.
Assim, andávamos vários meses, a falar de compreensão, extensão, reunião, intersecção, complementação e por aí fora.E os alunos nunca chegavam, verdadeiramente, a apreender essas matérias e, o que era ainda pior, para que serviam.
Mas, quando entre nós essa abordagem estava no auge, lá fora, já se estava a pôr de lado.
Porque, em boa verdade, a Matemática é uma ciência tão velha como a Humanidade e tem conceitos que não mudam. Pode incorporar novas contribuições, mas as raízes do edifício, mantêm-se inalteradas. Por tudo isso, as coisas foram recompostas e hoje, nos programas, já quase não há vestígios desses tempos.
Vem tudo isto a propósito deste último fim de semana em que fomos bombardeados com o termo "modernizar".
Assim, ouvimos falar da "esquerda moderna", de um "país moderno" e de outras modernizações.
E fiquei a pensar - que complexos ou propósitos terá no subconsciente quem precisa de se intitular, constantemente "de esquerda", mas, tendo o cuidado de temperar essa afirmação com a palavra "moderna".Ou de enunciar, de modo definitivo, que vai romper,de vez, com o passado.
E o que será isso de "esquerda moderna"? Será a esquerda que se veste com fatos Armani (como aconteceu com o PM na abertura do congresso)?
Já depois de ter pensado em escrever este texto, deparei-me no Público de domingo com dois artigos de opinião, que parecem feitos de encomenda para ilustrar que estou a dizer.
Respigo duas passagens, de dois comentaristas com os quais, muitas vezes, até nem estou de acordo (nem eles se preocupam com isso...).
António Barreto:
"Este PS não é de esquerda. O governo também não. Nem Sócrates, aliás."
Vasco Pulido Valente:
"Modernização é uma palavra equívoca. À primeira vista parece indicar "uma coisa boa". A cultura do Ocidente hoje quase não distingue "moderno" e "melhor". Mas, pensando bem, "modernizar" não passa, no fundo, de imitar. Ora fazer o que se faz "lá fora", como política e como programa, equivale, por força, a fazer pior. A cópia não vale por definição o original, e, às vezes, nem copiar se pode.Os "modernizadores", (como Cavaco, por exemplo) acabam inevitavelmente por deixar um Portugal híbrido. "incompleto" e torto, que depressa reverte ao seu "atraso" e que, em pouco tempo, volta a pedir com desespero ou espírito missionário, uma nova "modernização" ".