ESTA FIRMA FOI FUNDADA EM 31-12-2004.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

MÁRIO VIEGAS

Conheci o Mário Viegas quando ele passou uns dois anos no Porto, como estudante da Faculdade de Letras (não praticante, pois o seu mundo já era o das artes).
Destacou-se, desde logo, como um extraordinário declamador. Recordo, por exemplo, a sua fabulosa interpretação do "Poema para Galileu" de António Gedeão, uma peça onde o Mário conseguia transmitir, de forma contagiante, toda a ideia da intolerância e do obscurantismo de que os homens ("a quem Deus dispensou de procurar a verdade") podem ser capazes.
Uma vez, durante um período de lutas estudantis contra a ditadura então vigente, a polícia encurralou os estudantes na cantina universitária. Lá dentro, umas centenas de jovens, muito apreensivos, pois temiam que houvesse invasão e espancamento, mesmo no interior daquelas instalações. Foi então que o Mário Viegas subindo a uma mesa. disse, de modo vibrante, a quadra do Manuel Alegre:

Venho dizer-vos que não tenho medo!
A verdade é mais forte que as algemas.
Venho dizer-vos que não há degredo
quando se traz a alma cheia de poemas.

Não disse mais nada, nem foi preciso. Foi uma injecção de coragem!O ânimo voltou e todos permaneceram firmes, sem mais receios.
Perdi-o de vista pois foi para Lisboa (salvo erro era natural de Santarém). Foi singrando na sua carreira artística e fui tendo ecos dessa lenta ascenção (lenta porque a sua coerência não lhe permitia aceitar qualquer papel).
Já actor com algum relevo, fui-o encontrar a cumprir serviço militar numa unidade onde também permaneci cerca de dois meses. Com ar abatido, desabafou:
- É pá, sabes, passo a vida a ser castigado. Não tenho mesmo jeito para isto. Troco as fardas, não sei marchar. Isto está mau!
E disse-me que, para sobreviver, tinha, todos os dias, quando saía do quartel, de representar. Por exemplo, meter-se num taxi e fazer de conta que era um turista alemão...
Acompanhei, de longe a sua carreira e a sua irreverência. Como quando se apresentou como candidato a Presidente da República (afinal, mais uma das suas encenações).
Com posições da sua vida pessoal publicamente assumidas, morreu aos 47 anos, vítima de sida, faz 9 anos no próximo dia 1 de Abril.
Disse um dia:
"Nascemos e durante a vida estamos à espera de uma coisa que nunca chegará, que chega pouco.. A vida sempre foi assim."