sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Depois, as coisas acontecem...

Como se sabe, Portugal é um dos países onde acontecem mais acidentes de trabalho.
O facilistismo, a imprudência, a ignorância, estão, quase sempre, na base dessas ocorrências.
Ora veja-se mais este exemplo: um operário da construção civil, trabalha sentado numa plataforma sem grades, oscilante, que está suspensa de uma grua.


foto Peciscas
foto Peciscas

Aqui se mostra. mais uma vez, o quanto ainda temos de investir numa coisa que tantos julgam ser secundária, onde se podem poupar tostões não tendo, depois, de se gastar milhões: EDUCAÇÃO!

quarta-feira, janeiro 31, 2007

31 de Janeiro

A revolta de 31 de Janeiro de 1891 foi a primeira tentativa de implantação do regime republicano em Portugal.Ocorreu no Porto e foi afogada em sangue.
Deveria, por isso, ser uma data a celebrar por qualquer regime que se diz(dizia) republicano.
Mas, assim não era no regime anterior ao 25 de Abril. Tanto que, a rua que no Porto tinha esse nome, foi, por determinações do Estado Novo, mudada para rua de Santo António.
Era assim o nome dessa artéria que une as praças da Liberdade e da Batalha, quando vim estudar para o Porto.
Estava cá há apenas uns meses, quando um colega, uns dias antes da data me disse:
-No dia 31, vamos apanhar o comboio a Campanhã, pois apareceram para aí uns papéis a convocar uma manifestação.
Inicialmente, não entendi bem do que se tratava.
Mas, no dia marcado, saindo da Faculdade ao fim da tarde, ao descer a rua dos Clérigos dou com um mar de gente a encher a praça da Liberdade.
É claro que me esqueci do conselho do meu colega e fiquei por ali.
Cada vez mais gente.
A polícia, já lá estava, também.
Até que, a páginas tantas, vi levantar-se uma revoada enorme de pardais, que se acoitavam nas árvores que ali havia.
Era o sinal de que a polícia começava a carregar sobre os manifestantes.
E aquilo durou horas. O pessoal a fugir, os agentes a bater, os carros com canhões de água a despejar sobre o pessoal.
Estávamos em 1961 e foi ali que, verdadeiramente, despertei para a realidade de um país em que ter opinião era um direito que só existia para quem tivesse uma opinião que não incomodasse quem mandava.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Futebol...


Um amigo, que esteve recentemente em Londres, contou-me alguns pormenores sobre a visita que fez ao estádio do Chelsea de Mourinho.
Por exemplo, descreveu-me o luxo dos balneários reservados à equipa da casa, com todos e mais alguns equipamentos, para conforto dos atletas e para apoio do trabalho dos técnicos. Em contrapartida, os balneários das equipas visitantes, são do mais rudimentar que pode ser, sendo, inclusivamente, utilizado o sistema de ar condicionado, para criar dificuldades adicionais aos adversários: desligado no Inverno, para criar um ambiente com frio de rachar e ligado para temperaturas elevadas no Verão, para fazer suar, antes de tempo, os jogadores contrários.
Mas, outro dos pormenores que o mau amigo referiu , não deixa de ser espantoso. Com efeito, atrás de uma das balizas do estádio de Stamford Bridge, existe uma caixa, onde estão depositadas as cinzas de adeptos indefectíveis do clube londrino que fizeram, em vida, questão de exigir que os seus restos mortais ficassem depositados no local onde passaram muitas horas a apoiar a sua equipa.
Há mesmo o caso de um desses adeptos que tem parte das suas cinzas depositadas debaixo da marca de grande penalidade, no próprio recinto do jogo.
Gosto muito de futebol. Mas, estas manifestações de fanatismo, já passam das marcas...

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Assim, não!

Conforme se previa, a campanha para o referendo sobre a IVG, está a crescer em agressividade.
De ambos os lados, é certo.
No entanto, alguns partidários do "não" , dentro da legitimidade que têm, para defenderem as suas convicções, não parecem olhar a limites de razoabilidade e de ética.Reconheça-se que têm demonstrado uma grande militância e mobilização.
É claro que, neste caso, as estruturas já estavam, no essencial montadas e a funcionar há muito, muito tempo.
Veja-se um exemplo com que me deparei numa rotunda por onde passo às vezes.
Há uns dias, foi colocado ali um painel que vos mostro.
Foi claramente produzido por crianças que, para o efeito, foram motivadas por adultos.
Para além da manifesta falta de qualidade estética do produto e mesmo do péssimo português em que a mensagem está redigida, fica a manipulação de crianças que nunca deveriam ser utilizadas numa campanha que envolve questões tão delicadas e complexas .
A cerca de 100 metros deste local, fica uma escola do 1º ciclo.
Apenas coincidência?

foto Peciscas

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Chico


Há muitos, muitos anos, pertencia eu à direcção de uma cooperativa cultural do Porto, quando recebemos um convite para assistirmos à representação de uma peça pelo TUCA - Teatro da Universidade Católica de S.Paulo.
Não sabíamos, ao certo o que era aquilo, mas lá fomos para o S.João, para vermos o espectáculo.
A nós, calhou-nos bilhete para a 2ª sessão.
À porta, esperando a vez de entrar, assistimos à saída do público da primeira sessão.
O Mestre António Pedro, um dos maiores nomes da nossa cultura, vinha com um olhar luminoso.E disse para um de nós, apenas:
-Que coisa bonita!
Passado pouco tempo, estávamos na sala, para assistirmos à encenação de um longo poema de João Cabral de Melo Neto: " Morte e Vida Severina".
O espectáculo começou, à boca de cena, com a dedicatória a um dos actores (todos eles estudantes) que tinha sido impedido de viajar para Portugal, pela ditadura militar que então imperava no Brasil.
Depois, foi o encantamento.
O cenário, quase inexistente, os figurinos lineares.
Mas o texto, narrando o drama dos povo nordestino desse grande país cheio de contrastes, era forte, dramático, intenso.
Grande parte, cantado.
Era impossível desviar por um segundo só a atenção do que se passava no palco.
No final, a ovação, irrompeu, poderosa, com toda a gente de pé, lágrimas, nos olhos. Durou, mais de quinze minutos.
Foi, seguramente, o espectáculo que mais senti em toda a minha vida.
No fim, de tudo, houve um colega que conseguiu ir aos bastidores e veio de lá com um pequeno disco (nessa altura de vinil), com as músicas principais da peça, autografado pelo respectivo autor.
O compositor era, ao tempo, ele também, um jovem estudante de Arquitectura de uma Universidade de S. Paulo.
Chamava-se Francisco Buarque de Hollanda, e nenhum de nós alguma vez tinha ouvido falar dele.
Mas haveríamos de ouvir falar muitas vezes dele, pela vida fora.
Dele, do Chico, das canções que ficarão para a história da música.
Não sei se esse colega ainda conserva o precioso vinil.
Se ainda o tem, vale ouro, certamente.


para ouvir, clicar no triângulo do player

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Passei ao lado...

Nos meus tempos de juventude, convivi, mais ou menos de perto, com muita gente que é hoje bastante conhecida. "Figuras públicas" como se costuma dizer.
Alguns, estão na Assembleia da República. Por vezes após terem feito assinaláveis golpes de rins que os levaram a posições muito distantes das que inicialmente assumiam. Por exemplo, uma conhecida deputada, que hoje está no PSD mas que conheci a militar, ainda na clandestinidade, na então chamada UEC.
Outros estão na televisão como comentadores bem pagos.
Há mesmo alguma dessa gente que está ou esteve em cargos governamentais,autárquicos e outros.
Já aconteceu, uma ou outra vez, ter passado por perto de alguns desses conhecimentos antigos.Na maior parte dos casos, não se lembram ou fazem que não se lembram desses tempos em que me conheciam.
Esse pessoal, soube subir na vida. Aproveitou as oportunidades que lhes surgiram ou que procuraram. Para a maioria, o 25 de Abril foi a maior das oportunidades.Porque lhes permitiu valorizar uma real ou suposta participação na resistência ao anterior regime.
É claro que isso não foi nenhum crime; estavam no seu direito. Só que, às vezes, tendo em conta o que defendiam em certa altura da vida, e, também, o que demonstravam valer, dou por mim a pensar que, se calhar, passei ao lado de uma" grande carreira", por não ter sido "realista e pragmático" como eles.
Mas essa sensação vai-se embora imediatamente. Quando dou conta de que nunca seria capaz de me amoldar às circunvoluções que essas carreiras, quase sempre implicaram.
Por isso, não me lamento de continuar a ser um anónimo e modesto cidadão, que percorreu o caminho que escolheu, com a veleidade de não hipotecar os seus ideais às conveniências do momento.
Mas não deixo de esboçar um leve sorriso, quando vejo, a intervir publicamente, muitos desses cidadãos. É que, nessas alturas, nunca resisto à tentação de "rebobinar o filme".
E as coisas de que me lembro então!