
No início dos anos setenta, Timor ainda não era auto-suficiente em termos alimentares. Como o não é hoje. Como nunca o foi.
No tempo em que lá vivi, os alimentos, tanto para a população local como, muito principalmente para a tropa e para os portugueses, vinham da Austrália (na sua maioria em conservas) e , em grande medida de Portugal (na altura designado de Metrópole).
Lembro-me, por exemplo, de andar dois anos a beber leite condensado e a pôr manteiga de lata no pão ou a comer queijo derretido, que nos chegava, também, enlatado.
Havia um barco, o "Timor", em gíria denominado "patas de aço" que arribava ao porto de Dili duas vezes por ano. Trazia tropas para rendição de contingentes e trazia géneros. De Portugal, de Angola e de Moçambique, onde escalava.
Azeite, batatas, vinho, cerveja, tabaco, arroz, massa e por aí fora, eram descarregados, nessa festa bianual que era a chegada do navio a Dili.
A vida, naquelas terras, dependia, em grande medida, desses abastecimentos.
Por isso, numa ocasião em que o barco, já bastante velho, avariou e esteve uns meses a reparar em Lisboa, as reservas alimentares começaram a escassear, de tal modo que, pouco a pouco, a comida disponível foi ficando cada vez mais limitada.
Começaram por desaparecer as batatas, depois o arroz (base essencial da dieta alimentar timorense) e quase tudo o mais. Cumulativamente, os poucos talhos que havia (penso que eram dois, um dos quais apenas servia militares, tendo apenas carne de búfalo e de porco) também foram ficando despejados.
A dado passo, só tínhamos, para comer, massa e salsichas. Mais nada.
Durante uns três ou quatro intermináveis dias, só massa e salsichas.
Imagine-se um bando de portugas, longe da terrinha, sem as indispensáveis batatinhas que faziam parte da nossa alimentação desde os primeiros dentes.
Na casa onde morava, com mais três camaradas, sonhava-se noite e dia com o tal apetecido tubérculo.
Até que um dia, o Marcelo chegou, esbaforido e rejubilante:
-É malta, o Mye Hap tem batatas!
Era um restaurante chinês (como era quase todo o comércio nessa altura) onde se ia poucas vezes, quando se queria comemorar algo.
Quase em uníssono, todos gritámos:
-Vamos lá jantar!
Fomos o mais cedo possível. No entanto, metade da guarnição militar, tivera a mesma ideia. Estava o restaurante cheio, de modo que tivemos de aguardar vaga, durante largos minutos, o que, dantes nunca tinha acontecido.
Quando, finalmente chegou a nossoa vez, o empregado perguntou-nos o que queríamos comer.E nós, novamente a uma só voz:
-Batatas!
E o atónito empregado:
-Mas... Batatas, com quê?
- Ó pá! Com o que tu quiseres! Traz mas é batatas, porque o resto não interessa.
Devem ter sido as batatas que mais saboreámos até hoje.
Seguramente que lagosta não nos teria sabido melhor...
LOL!
ResponderEliminarE eu que às vezes enjoo batatas de tanta vez que como!