ESTA FIRMA FOI FUNDADA EM 31-12-2004.

sexta-feira, setembro 25, 2009

O velho "Timor"

O "Timor" era um velho navio da frota colonial que assegurava as ligações entre a então chamada "Metrópole" e a então chamada "Província".
Quando o conheci, já ele tinha uma provecta idade, e os vestígios da velhice acumulavam-se por todo o lado.
Havia, no entando, um sector que eu valorizava bastante. Era o salão de acesso ao restaurante, que tinha uma escadaria dupla encimada por uma grande pintura representando o Régulo D. Aleixo Corte-Real, um histórico herói timorense.
Mas o "Patas de Aço", como era conhecido na gíria local, lá se arrastava pelos sete mares, numa viagem que durava cerca de 45 dias, com passagens por Angola e Moçambique. Ia a Timor duas vezes por ano.
Certa vez. o barquito avariou e esteve muito tempo sem aparecer. Foi uma desgraça... Os géneros começaram a faltar e tivemos de improvisar soluções para conseguirmos subsistir.
Mas, quando ele aportava a Timor, era uma festa!
O navio trazia tropas para rendição das que já tinham cumprido a comissão de serviço e tranasportava víveres e outros géneros de que dependia a nossa vida. Como, por exemplo, as batatas, a cerveja, o tabaco, o vinho e por aí fora.
Nos poucos dias em que o "Timor" ali permanecia, ia-se até lá dentro. Para tomar um café. Para tomar um pequeno almoço à "moda da Metrópole". Para beber um "gin orange". E para comprar tabaco estrangeiro de contrabando, que os tripulantes exibiam às claras.
Os próprios timorenses, faziam os possíveis para subirem a bordo, pois o navio, apesar de até nem ser muito grande, era, para eles, imponente.
E entre eles, havia algumas pobres prostitutas locais que ali iam oferecer os seus serviços aos marinheiros, saturados de tanto mar.
Recordo ainda uma almoçarada a bordo do "Timor" conseguida por um amigo que conhecia um tripulante. Comemos uma soberba caldeirada, regada por um vinho tinto que, mesmo não sendo propriamente um "Barca Velha" nos pareceu o melhor dos néctares. De tal modo que, finda a refeição e regressando a terra firme, não fora agarrarmo-nos firmemente às cordas que ladeavam a escada, teríamos todos mergulhado nas cálidas águas da baía de Dili.

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segunda-feira, novembro 17, 2008

Histórias da tropa 6

Nos quartéis sempre havia cães vadios, em busca de um abrigo e de comida.
Viviam por ali, felizes, entre fardas verdes, às quais se habituavam de tal forma que estranhavam a chamada "roupa civil".
Quando estive no quartel do Lumiar, em Lisboa, entre os vários canídeos que faziam parte dos efectivos, havia o Kropachek.
Este nome tinha sido retirado das velhas, pesadas e obsoletas espingardas que tínhamos de usar na instrução. "Usar" é como quem diz pois nenhuma delas seria capaz de disparar um único tiro. Eram do século XIX e só serviam para "dar nas vistas". Naquele tempo os recursos mais importantes eram canalizados para a guerra colonial,ficando, na rectaguarda, o refugo.
Numa longa noite de marcha ( as chamadas "marchas finais") tivemos de sair do quartel , pelas 21 horas, para fazer um longo percurso por diversas zonas dos arredores de Lisboa.
O bom do Kropachek resolveu ir connosco.
Mas a sessão prolongou-se enormemente, pois não atinámos com o caminho, deambulámos por montes e vales, numa interminável marcha que só terminaria pelas 9 da manhã.
A dada altura, não fazendo a mínima ideia de onde estávamos, subi uma pequena ladeira para espreitar algum ponto de referência que pudesse ajudar. O cão foi comigo.
Às tantas escorreguei e espalhei-me ao comprido.
Pois o cachorro, que já estava exausto de tanto dar à pata, vendo-me deitado e julgando que já era hora de descansar, imediatamente se enroscou ao meu lado e fechou os olhos.
Quando me sentiu levantar de novo, virou para mim um ar bem desconsolado.
Mas aguentou connosco a parte final. Que haveria de passar por algo de absolutamente proibido pelos regulamentos militares. É que, já por volta das 7 horas da matina, e ainda longe do quartel, resolvemos apanhar uma camioneta, que levava já muita gente ali da zona de Benfica para os seus empregos.
O Kropachek, claro que foi connosco. Corremos as cortinas da camioneta, com a conivência dos passageiros, que compreendiam os sacrifícios por que estávamos a passar.
Regressados ao aquartelamento, o cãozito desapareceu. Imagino que dormiu durante dois dias...

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terça-feira, abril 15, 2008

Histórias da tropa 5

Quando fiz a recruta, naquele enorme casarão que é o Convento de Mafra, na minha caserna havia um companheiro de infortúnio que se destacava pela sua altura. De facto, não chegava a ter um metro e meio. É preciso notar que, naqueles tempos de guerra colonial, iam para as fileiras do exército, praticamente todos os homens que atingissem a idade militar. Porque, em circunstâncias normais, nunca seria escolhido quem tivesse menos de um metro e sessenta.
E porque era baixinho, ganhou rapidamente a alcunha de "Ponto de Mira".
Para quem não saiba, o ponto de mira de uma arma é um pequeno dispositivo, colocado na extremidade do cano, e que serve para se fazer pontaria no disparo.
Este camarada tinha diversas particularidades que o tornavam uma personagem interessante.
Assim, apesar das suas diminutas dimensões, o "Ponto de Mira" dormia...sentado na cama. O pessoal, no gozo, dizia que seria ...por falta de espaço.
Mas o pior é que este militar tinha o condão de adormecer em qualquer lado e com uma rapidez impressionante. Assim, quando estávamos na instrução e havia os tradicionais dez minutos para espairecer, fumar um cigarro ou simplesmente conversar, era certo e sabido que o PM se encostava a uma árvore e partia para os braços de Morfeu.
De tal forma que, muitas vezes, reatada a instrução e a caminhada, era preciso andar a vistoriar a mata, para descobrir o sonolento soldado.
E quantas vezes o perdemos!

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quinta-feira, maio 03, 2007


Nos anos setenta, em Timor, quase não havia turismo.
A não ser o chamado "turismo de pé descalço" ou, melhor dizendo, "de chanatos de borracha". Assim ,apareciam por lá uns jovens e umas jovens, na maioria oriundos da Austrália, que vinham em busca de uma certa liberdade de acção e da vida barata.
Havia mesmo , na praia, quase em frente ao melhor hotel de Dili, um grande recinto coberto do tipo alpendre, coberto de colmo e chão de cimento, com sanitários e onde se podiam estender uns sacos-cama e dormir, mais ou menos ao ar livre. Era a chamada "Beach House".
Ora, nessa altura, havia no Quartel General um cabo, encarregado da arrecadação da Companhia de Comando e Serviços, lisboeta dos quatro costados (penso que da Mouraria), a quem as australianas despertavam uma particular apetência erótica.
Mas tinha um "pequeno" problema: a língua inglesa, era, para ele, um território quase desconhecido.
Por isso, o homem, depois de muito cogitar, elaborou uma frase que era uma espécie de cartão de visita, com que iniciava as abordagens às beldades do país dos cangurus:
- Me, Abílio, primeiro cabo of arrecadeixan!
E não é que o Abílio, no meio de inúmeras tentativas que se saldaram por umas risadas trocistas das visadas, algumas vezes até "levou a água ao seu moinho"?

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sexta-feira, março 09, 2007

Histórias da tropa 4


Durante uma fase do meu percurso militar estive colocado nos Açores, mais precisamente em Ponta Delgada.
Inicialmente, tive algumas dificuldades de adaptação, designadamente no que se refere à compreensão da linguagem particular daqueles compatriotas.
Ora, na primeira vez em que estive de oficial de dia ao Quartel-General, fui solicitado por dois soldados, que pertenciam à banda militar e que se pegaram à pancada na respectiva caserna.
Cada um vinha acusar o outro da responsabilidade da refrega.
Falavam os dois ao mesmo tempo e eu não entendia nada.
Ordenei que falasse um de cada vez.
Já de si, aquele modo de falar era de todo difícil para mim, mas, com o nervosismo próprio da situação, expressavam-se tão depressa, que eu entendia ainda menos.
Assim, ao fim de duas tentativas para decifrar o discurso, achei por bem, mandá-los. com ar severo regressar à caserna, vociferando que se me voltassem a aparecer, iria participar de ambos.
O que é certo é que, com o decorrer dos dias fui-me habituando à fala dos açorianos e, de hoje em dia, até sou capaz de arremedar o sotaque micaelense.
A propósito, aqui vos deixo um exito musical oriundo daquela bela ilha de S. Miguel, para ver se conseguem entender a mensagem do artista.
Aqui, talvez seja preciosa a ajuda do António José Faria, amigo de Ponta Delgada, que é capaz de contribuir para a descodificação da letra da cantiga.

ExitoMusical_Acore...

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quarta-feira, setembro 13, 2006

Histórias da Tropa 3


Um Capitão, de quem já aqui uma vez falei, quando estava em Timor, veio ter comigo, que tinha a meu cargo, entre outras coisas, a gestão do departamento fotográfico do quartel, com um problema para resolver.
-Sabe, nosso Alferes, na semana passada, levei a minha máquina para a praia e mergulhei com ela para fotografar os corais e, sabe, ela estragou-se!
- Claro que se estragou, meu Capitão. É que a máquinas que fotografam debaixo de água são especiais e não essas que a gente usa normalmente...
- Pois, se calhar foi isso. Mas, agora fiquei com um problema. É que, no Domingo que vem, a minha mulher faz anos e eu queria tirar-lhe umas fotografias e não tenho máquina. Por isso, já falei com o nosso Comandante e ele autorizou-me a vir levantar uma máquina cá da tropa.
Entretanto, como eu já sabia que aquele homem não tinha sido dotado pela natureza com uma inteligência particularmente acutilante, e porque as máquinas que tínhamos, já antigas e profissionais, não dispunham de tecnologia de medida automática que graduasse a exposiçao, a velocidade e outras coisas que tais, sempre lhe fui dizendo:
-Está bem, meu Capitão, mas olhe que também tem de levar um fotómetro para definir a abertura do diafragma e ...
- Ó nosso Alferes -interrompeu-me logo-, isso é muito complicado para mim. Você vai mas é regular-me a máquina para uma luz como a que está agora ali fora, e eu depois espero até as coisas ficarem assim, para tirar as fotografias.
Obedientemente, cumpri as ordens mas imagino, a avaliar pela ausência de comentários e pelo olhar comprometido, quando devolveu a máquina, que o resultado não deve ter sido grande coisa...

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